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Altered Carbon – A Série Cyberpunk da Netflix

Altered Carbon é uma série de televisão de ficção científica. A primeira temporada tem dez episódios e estreou na Netflix em 2 de fevereiro de 2018.

Sinopse de Altered Carbon

A série ocorre 350 anos no futuro no ano 2384. No futuro, as memórias de uma pessoa estão armazenadas em “pilhas corticais”, dispositivos de armazenamento  alienígenas que foram duplicados em massa por engenharia reversa e inseridos cirurgicamente nas vértebras na parte de trás do pescoço.

Os corpos físicos são chamados de “luvas” ou “capas” (sleeves), corpos descartáveis que podem aceitar qualquer “pilha cortical”.

A narrativa acompanha a saga de Takeshi Kovacs, que começa como um revolucionário (ativista/soldado), cujo principal objetivo é acabar com a tecnologia que permite a imortalidade criada artificialmente no universo da série. Kovacs é capturado e sua consciência é transferida para um novo corpo centenas de anos depois, “ressuscitado” pelo milionário Laurens Bancroft para investigar sua própria morte.

Um dos pontos fortes de Altered Carbon sem dúvida é sua rica mitologia, que dentre uma variedade de temas foca sua narrativa nos desdobramentos psicológicos, sociais e políticos do que seria a maior invenção da história da humanidade, os cartuchos corticais.

No futuro de Altered Carbon, que se passa no século 24, a invenção dos cartuchos corticais representam a vitória da raça humana sobre a morte.

Ao nascer, toda pessoa tem um cartucho implantado no seu sistema nervoso central, que atua como um receptáculo de sua consciência. A tecnologia registra todas as memórias, habilidades e cognição, ou seja, todos os impulsos neurais que tornam você “você”.

Com a invenção, o corpo humano passa a ter apenas um papel utilitário, uma “capa” a ser usada.

O Universo Cyber Punk que a gente precisava

Desde o momento que você nasce e enche seus pulmões de ar pela primeira vez, existe uma única certeza: a morte. Entretanto, no futuro no qual se ambienta Altered Carbon, essa característica foi eliminada quase completamente por meio de um dispositivo que é capaz de guardar toda a essência e as habilidades de uma pessoa e facilmente transferi-las para outros corpos.

Nesse cenário no qual qualquer pessoa pode se tornar imortal (a única exceção sendo quando a “morte” também envolve destruir esse dispositivo), a distribuição de renda é ainda mais desigual. Os ricos têm agora a eternidade para multiplicar cada vez mais as suas gigantescas fortunas e se afastar da realidade mundana, tanto fisicamente, construindo impérios literalmente acima das nuvens, quanto figurativamente, com a total ausência de empatia pelas pessoas que não têm a mesma sorte.

São centenas de anos acumulando riquezas e conhecimento para se sentir acima de qualquer lei.

A vida tem um preço: se você tem dinheiro pode manter-se sempre com a mesma aparência graças a clones reservas, fazer backup de suas memórias na nuvem ou mesmo comprar upgrades que garantam força sobre-humana.

Se você não tem, pode ter que se contentar com qualquer “casca” que estiver sobrando caso sofra um acidente.

Todas as dinâmicas humanas mudam nesse contexto, e conceitos como alma, divindades, pós-vida ou relacionamentos ganham novos significados. A construção de mundo da série realmente coloca o espectador naquele universo e faz inúmeros questionamentos pertinentes sobre como vemos as pessoas que amamos, o apego emocional que existe à aparência física delas, como as religiões têm que se moldar e mudar seu significado a partir do momento que humanos comuns se tornam imortais, além de fazer pensar se essa é uma realidade na qual vale a pena viver para sempre.

É nesse plano, com essas características sempre presentes, que Altered Carbon traça sua trama central.

Entretanto, conforme o universo da série vai se expandindo e a narrativa mostra flashbacks que ajudam a entender os fatores que levaram a esse momento distópico, o desfecho do mistério principal — sobre o assassinato de um dos homens mais ricos do universo — é o que menos importa.

Personagens

O que é realmente fascinante é começar a entender o mundo pelos olhos do protagonista, Takeshi Kovacs, alguém que acabou de despertar em um novo corpo após passar 250 anos no limbo pelos crimes que cometeu. Ou mesmo conhecer cada um dos personagens secundários que passam de meras caricaturas a criaturas com anseios, medos e fraquezas bem claras, com as quais é possível se relacionar.

Kristin Ortega é um dos melhores exemplos. Apresentada como uma antagonista irritante nos primeiros episódios, se torna mais cativante conforme as motivações dela ficam mais claras. Outro personagem que surpreende é Poe, que passa de uma mera piada sobre o autor Edgar Allan Poe para alguém indispensável para Kovacs.

Essas figuras também ajudam a ampliar alguns conceitos que existem no nosso mundo, como Inteligência Artificial e Realidade Virtual, mas que em Altered Carbon ganham uma série de regras e peculiaridades próprias. Cada episódio se aprofunda mais nessas informações, mas tudo é apresentado de maneira natural e com um ritmo que não deixa o espectador perdido.

O que é Cyberpunk?

O gênero cyberpunk pode ser definido como obras de ficção científica ambientadas em sociedades urbanas futurísticas dominadas pela tecnologia. Nestes mundos, o que impera é o contraste entre o avanço da tecnologia e o retrocesso nas condições de vida. O sonho do desenvolvimento tecnológico que traria melhores condições sociais e distribuição da riqueza é sobrepujado pelas desigualdades sociais provocadas por grandes corporações que visam o lucro acima de tudo.

Uma das obras precursoras do gênero foi Neuromancer (1984), de William Gibson, inspirada pela cultura punk e o início do movimento hacker. No livro, a maior parte da ação se dá no ciberespaço (termo usado pela primeira vez no livro), em um ambiente virtual que inspirou fortemente o filme Matrix, das Irmãs Wachowski. A conexão entre o cérebro humano e sistemas virtuais geralmente são muito explorados neste gênero.

Nas narrativas cyberpunk, os protagonistas costumam ser seres solitários, individualistas e alienados da sociedade como um todo. Nestes universos, o avanço da tecnologia tende a gerar uma sensação de desamparo e desesperança diante do mundo, enquanto conceitos como “alma”, “céu e inferno”, e “Deus” se tornam cada vez mais irrelevantes.

Quando a tecnologia passa a permitir ao homem atos e criações anteriormente conferidas apenas a deuses, não haveria mais necessidade e espaço para a espiritualidade.

Apesar de na série a tecnologia ter permitido ao homem virar seu próprio Deus, a religião e espiritualidade não desaparecem. Isto é refletido na figura dos neo-católicos, pessoas religiosas que acreditam que o upload da consciência em outro corpo seria uma heresia, condenada ao sofrimento eterno no inferno.

Por isso, incluem um código em seus cartuchos que os impedem de serem “reencapados” (termo usado no universo da série para a troca de corpos).

Na mitologia da série, no entanto, os cartuchos não foram inventados inicialmente para esta finalidade. Como o material que os compõe foi deixado na Terra por uma civilização alienígena, junto a mapas de outros planetas habitáveis na galáxia, os cartuchos foram criados para permitir a viagem interestelar, como um forma de chegar mais rápido a estes planetas.

Bastaria fazer o download de sua consciência através do cartucho para transmiti-la a um novo corpo que estaria esperando em um outro planeta. Uma espécie de teletransporte.

No entanto, a definição do que algo é (ou do que não é) vem exatamente de seus limites. Até onde vai o céu e onde começa a terra? No limite do horizonte. Sem esta fronteira, existiriam céu e terra?

Porque eu amei?

Desde que começou a atividade de imaginar histórias, a raça humana se vê circulando a questão da morte e pensando em novas maneiras em como derrotá-la. Faz parte da nossa natureza ter dificuldade em aceitar a finitude da vida, o que torna o tema riquíssimo em possibilidades dentro da ficção. Especialmente no ramo da ficção científica, no qual proliferam contos sobre reverter ou impedir o que e? irreversível e impossível de impedir: a morte de todas as coisas vivas.

A profusão de temas em Altered Carbon é riquíssima, e passa por todas as esferas da existência humana, ao abordar questões sociais, biológicas, psíquicas, espirituais, políticas, éticas, legais… a lista não tem fim.

A mortalidade, exatamente por delimitar a existência humana, é portanto o que nos confere a humanidade em si. Não obstante, levantamos de nossas camas todos os dias motivados a trabalhar e fazer outras atividades como fôssemos viver para a sempre.

Se lembrássemos a todo momento que somos mortais e que em algum momento seremos privados de nossa existência, será que continuaríamos fazendo as coisas da mesma forma?

Viver esquecendo que a morte existe, além de nos liberar de um sentimento extremo de ansiedade e estresse, faz com que construamos coisas pensando no futuro e nas próximas gerações.

Em Altered Carbon, entretanto, o “projeto de imortalidade” é construído de forma literal, já que a vida eterna é realmente uma possibilidade. Esse projeto consiste em acumular riquezas para ser capaz de comprar novas capas a cada morte de seu corpo momentâneo.

Na mitologia da série, não existiria mais a urgência de uma vida heróica, já que não haveria a necessidade de manter seu nome vivo para as próximas gerações através de feitos e conquistas. Seu nome pode ser mantido vivo de forma literal.

Os “Matusas”, por serem os detentores exclusivos de um real “projeto de imortalidade”, não têm necessidade de levar esta vida heróica, dotada de significado ou propósito. Se limitam portanto a viver uma ciranda hedonista de festas e prazeres.

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