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O Labirinto dos Espíritos – A Conclusão de uma das minhas sagas literárias favoritas

O Labirinto dos Espíritos – A Conclusão de uma das minhas sagas literárias favoritas

O Labirinto dos Espíritos é um romance de ficção do autor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Este é o quarto e último livro da série Cemitério dos Livros Esquecidos.

“A maior parte de nós, os mortais, nunca chega a conhecer o seu verdadeiro destino. A apenas somos atropelados por ele. Quando erguemos a cabeça e o vemos afastar se pela estrada já é tarde, e o resto do caminho temos de fazê-lo pela valeta daquilo a que os sonhadores chamam maturidade. A esperança não é mais do que a fé em que esse momento não tenha ainda chegado, que consigamos ver o nosso verdadeiro destino quando se aproximar de nós e saltar para bordo antes que a oportunidade se sermos nós mesmos se desvaneça para sempre e nos condene a viver no vazio, com saudades do que devia ter sido e nunca foi.”

Sinopse de O Labirinto dos Espíritos

Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres aparecem novamente no romance ambientado na Barcelona dos anos 50. Daniel, oprimido pela raiva e necessidade de vingar a morte de sua mãe, Isabella, descobrirá uma rede de crimes e violações da Espanha franquista, e uma nova protagonista, Alicia Gris, o ajudará a resolver os mistérios.

“Nunca nos damos conta do vazio em que deixamos passar o tempo enquanto não vivemos de verdade. Por vezes a vida, não os dias queimados, é só um instante, um dia, uma semana, um mês. Sabemos que estamos vivos porque dói, porque de repente tudo importa e porque quando esse breve momento se acaba, o resto da existência se transforma numa recordação à qual tentamos em vão regressar enquanto nos resta alento no corpo.”

Para além de Daniel e Fermín, temos novos personagens que nos vão trazer muitas aventuras, mistério e até angústia. A ação inicia-se com o desaparecimento do ministro Maurício Valls e, Alicia, uma agente de Leandro, é encarregada de liderar a investigação, juntamente com o polícia Vargas.

[ Livro ] Ouse Crescer – Tara Mohr

O final de um ciclo

“- Já alguma vez ouviu aquela frase tão batida a respeito de no amor e na guerra tudo ser permitido, Daniel?
– Várias. Quase sempre na boca dos que estão mais pela guerra do que pelo amor.”

A espera do último volume do Cemitério dos Livros Esquecidos foi longa e que me deixou muito ansiosa. Considero que este é um maravilhoso volume final para uma das mais fantásticas sagas que conheço, porque está muito bem escrita, porque a história é muito boa e porque os livros (sim, livros físicos, quem conhece a saga sabe da sua importância) têm um papel fundamental.

[ Livro ] Ninfeias Negras – Michel Busi

Adoro a escrita de Zafón e a forma como o autor vai construindo as suas histórias que me mantém apreensiva. Descrições incríveis que nos transportam para Barcelona do finais dos anos 50.

Apesar de os livros serem independentes, as histórias acabam por se completar e O Labirinto dos Espíritos vem esclarecer alguns mistérios e acaba por abranger os outros três livros.

“a partir de um certo ponto na vida o futuro de um homem está invariavelmente no seu passado.”

Achei este livro um pouco diferente dos anteriores, com uma história mais thriller. O enredo se desenvolve em torno do sequestro de Mauricio Valls, vilão já conhecido do leitor. Alicia e Vargas são contratados para ajudar a desvendar o caso, mas terminam descobrindo muito mais do que deveriam e arriscando suas vidas.

Claro, os mistérios estão conectados com os livros anteriores.

Daniel Sempere fica, finalmente, a conhecer a toda história da origem da sua vida e é essa mesma história que nos é contada, mais tarde, por uma outra personagem com ele relacionada e de um jeito particularmente interessante. O mesmo sucede com a sua mãe Isabella, cujo passado ficamos a conhecer melhor de forma magistral, o que nos permite juntar todas as peças do quebra-cabeça.

“(…) o primeiro tomo centrar-se-ia na história de um leitor (…) e de como nos seus anos de mocidade descobria o mundo dos livros e, por extensão a vida, através de um enigmático romance escrito por um autor desconhecido que escondia um mistério daqueles de deixar a boca seca“.

O segundo tomo, empapado num sabor mórbido e sinistro destinado a espicaçar os leitores de bons costumes, relataria a macabra peripécia vital de um romancista maldito (…)”.

O terceiro tomo, supondo que o leitor sobrevivesse aos dois primeiros (…) resgatar-nos-ia de forma momentânea do averno e oferecer-nos-ia a história de uma personagem, a personagem por excelência e a voz da consciência oficial da história, ou seja,(…) Fermín Romero de Torres“.

A quarta parte, virulentamente enorme e temperada com os perfumes de todas as anteriores, levar-nos-ia por fim ao centro do mistério e desvendaria todos os enigmas (…)”.

Assim como nos demais volumes, em O Labirinto a metaliteratura está sempre em cena. Zafón nos presenteia com uma literatura que referencia – e reverencia – grandes obras, mas de forma despretensiosa e sutil. Senti vontade de abraçar o livro em diversos momentos, mas, apesar de a história estar finalizada, queria mais.

O Labirinto dos espiritos
O Labirinto dos espíritos

Mas o melhor deste livro é, sem dúvida, a criação pelo escritor de uma nova personagem, ao mesmo tempo fria, calculista, muito inteligente, sombria, mas também sensível, preocupada com os amigos, justiceira, no bom e no mau sentido que esta palavra encerra, Alicia Gris, uma jovem de 29 anos, que foi vítima, enquanto criança, de um ferimento que lhe provoca um profundo sofrimento, ocorrido no bombardeamento sobre a cidade de Barcelona, durante a Guerra Civil de 1936-1939.

“Nunca nos damos conta do vazio em que deixámos passar o tempo enquanto não vivemos de verdade. Por vezes a vida, não os dias queimados, é só um instante, um dia, uma semana, um mês. Sabemos que estamos vivos porque dói, porque de repente tudo importa e porque quando esse breve momento se acaba, o resto da existência se transforma numa recordação à qual tentamos em vão regressar enquanto nos resta alento no corpo.”

Achei aquele último capítulo, O Livro de Julián, muito anti-climácico, tendo em conta a intensa atmosfera de tensão e mistério que me absorveu durante quase toda a história.

É assim que Zafón, ele próprio, quase no estertor desta memorável narrativa, nos resume a forma com que faz que “O Labirinto dos Espíritos” seja um romance absolutamente notável.

Poderia utilizar um lugar-comum dizendo que é um livro para saborearmos mas este último romance de uma tetralogia, iniciada com a “Sombra do Vento”, é algo que nos compõe, nos recompõe, nos instrui e não estaria a exagerar se dissesse que nos ajuda a formar o nosso caráter pelos ensinamentos que nos fornece.

[ Livro ] Inferno – Dan Brown

Pois não se trata apenas de uma abordagem trivial a um mistério, mortes, desaparecimentos e assassinatos ocorridos em Barcelona durante o período da ditadura franquista.

“O Labirinto dos Espíritos” tem um pouco de tudo: drama, crime, comédia tudo na medida certa, as metáforas que Zafón utiliza são incríveis, uma história verdadeiramente apaixonante em todos os sentidos.

“Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada. Uma história é um labirinto infinito de palavras, imagens e espíritos esconjurados para nos revelar a verdade invisível a respeito de nós mesmos. Uma história é, em última análise, uma conversa entre quem a narra e quem a escuta, e um narrador só pode contar até onde lhe chega o ofício e um leitor só pode ler até onde leva escrito na alma.”

É esta a regra-mestra que sustenta todo o artifício de papel e tinta, porque quando as luzes se apagam, a música se cala e a plateia se esvazia, a única coisa que importa é a miragem que ficou gravada no teatro da imaginação que todos os leitores têm na mente.

Isso e a esperança que todo o fazedor de contos acalenta: que o leitor tenha aberto o coração a alguma das suas criaturas de papel e lhe tenha entregado qualquer coisa de si para torná-la imortal, ainda que seja só por uns minutos.

E dito isto com mais solenidade do que a ocasião provavelmente merece, mais vale aterrar no fim da página e pedir ao amigo leitor que nos acompanhe até ao fim desta história e nos ajude a encontrar o mais difícil para um pobre narrador apanhado no seu próprio labirinto: a porta de saída.”

Depois de ler a última página, fiquei me sentindo feliz e triste. Foi como dizer adeus a velhos amigos. E enquanto eu entendi que era hora de terminar a série, não há mais história para contar aqui.

A história finalmente deu uma volta completa. Todas as respostas das parcelas anteriores foram finalmente trazidas à vida e eu gostei de cada página do mesmo jeito.

“Bebe-se para recordar, escreve-se para esquecer”

O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafon

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